Luiz Gonzaga, O Rei Do Baião Se Veste De Sertão

Luiz Gonzaga nasceu, em 1912, no interior de Pernambuco. Em sua infância, teve o primeiro contato com a Sanfona ao acompanhar seu pai, um sanfoneiro, nos bailes da região. Certa feita, um dos instrumentistas não compareceu e Gonzaga foi convidado a tocar em seu lugar. A partir de então, começou a ganhar notoriedade no sertão pernambucano.

Em sua juventude, fugiu de casa. Tomou tal atitude após ser impedido de se casar com Nazinha, seu primeiro amor. Partiu, então, para o Crato, na região do Cariri, no interior do Ceará E, depois, para Fortaleza, onde se alistou no Exército Brasileiro.

Na instituição militar, permaneceu 9 anos. Neste período, participou de várias revoluções, como a Revolução de 30. Com a Conflagração, o batalhão de Gonzaga percorreu muitos Estados até chegar à cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde Luiz estabeleceu residência. Em Minas, conheceu Domingos Ambrósio, sanfoneiro, que o ensinou a tocar diversos ritmos musicais, tais como valsa, fado e tango.

Os Primeiros Passos de Luiz Gonzaga na Música

Em 1939, deu baixa no Exército e partiu para o Rio de Janeiro, a fim de seguir a carreira musical. Na Cidade Maravilhosa, passou a tocar no Mangue, zona de prostituição carioca. Lá, participou de vários shows de calouros, porém, não obteve sucesso, já que tocava valsas e tangos.

A sorte de Gonzagão mudou ao artista aceitar a sugestão de nordestinos que assistiam a uma apresentação do músico, para que ele tocasse músicas do sertão nordestino.

Em 1941, Gonzagão participou show do músico Ary Barroso (1903 – 1964) – compositor nascido em Ubá/MG e autor de Aquarela do Brasil, concebida em 1939 e originalmente gravada por Francisco Alves, com arranjos e acompanhamento de Radamés Gnattali e orquestra.

A canção fez parte da trilha sonora do filme Saludos Amigos (1942), de Wilfred Jackson (1906 – 1988), e, também, marcou o início do movimento samba-exaltação, de natureza ufanista.

No show de Ary, Gonzagão foi imensamente aplaudido ao tocar a música de sua autoria, Vira e Mexe e, além disto, recebeu a nota máxima do exigente apresentador. Com isso, conseguiu um contrato com a Rádio Nacional e alcançou o estrelato ao tocar a sua verdade.

Asa Branca

Ainda na década de 40, mais precisamente, em 3 de março de 1947, Gonzagão gravou Asa Branca, marco da Música Popular Brasileira e o maior sucesso da dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (1915 – 1979) – nordestino radicado no Rio de Janeiro.

Não obstante tal êxito, no início, Gonzaga achou que a música não faria sucesso, já que era triste e lenta. O tempo mostrou que ele estava completamente enganado.

Asa Branca foi inspirada na sinfonia de Januário, pai de Luiz, e na harmonia do sertão. A melodia foi criada por Gonzagão e a letra, por Humberto Teixeira, já que Luiz era iletrado. Já o nome faz alusão à ave Asa-branca, pássaro encontrado no Nordeste Brasileiro, o qual deixa seu habitat, na época da seca.

Asa Branca retratava o cenário socioeconômico do Nordeste, porém, alcançou sucesso nacional e internacional, já que tratava de sentimentos universais, como: perda, exílio, saudade e solidão.

Regravações

Certa feita, Gonzaga estava no Crato, no interior do Ceará. E, ao passar em frente a uma loja, o dono do estabelecimento o chamou e lhe mostrou a regravação de Asa Branca, feita por Caetano Veloso (1942) – no período, em que o artista baiano esteve exilado, de 1969 a 1972, na Inglaterra. Ao ouvi-la, o Rei do Baião chorou copiosamente.

Asa Branca foi regravada por mais de uma dezena de artistas, dentre os quais, destaco Gonzaguinha (1945 – 1991), filho do cantor, Fagner (1949) e David Byrne (1952), o qual gravou a canção em Inglês.

Asa Branca

Luiz Gonzaga

Quando olhei a terra ardendo

Qual a fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de prantação
Por falta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração

Apogeu e queda de Luiz Gonzaga (décadas de 40 e 50)

Gonzagão fez grande sucesso no fim da década de 40 e em toda a década de 50 (de 1946 a 1955, foi o artista que mais vendeu discos no Brasil, com mais de 30 milhões de cópias vendidas).

No entanto, ficou no Ostracismo na década de 60, devido ao surgimento e ao auge da Bossa Nova – movimento artístico que criou uma nova roupagem para o Samba Carioca, criado por Tom Jobim (1927 – 1994), Vinicius de Moraes (1913 – 1980), João Gilberto (1931), dentre outros -, já que a música de Luiz era considerada cafona e pobre.

Voltou a ter destaque com regravações de artistas tropicalistas (movimento artístico que propunha a ruptura, a quebra de paradigmas e a criação de uma nova ordem cultural e a afirmação da Arte brasileira), como Caetano Veloso (1942). E retornou com maestria no início da década de 70, com duas semanas de shows Gonzaga volta para curtir no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro.

Os artistas tropicalistas participaram do show, a fim de exaltar a importância do Rei do Baião, para a Música Popular Brasileira. Com isso, entrou, definitivamente, para o primeiro time da música brasileira, chegando a ser aclamado um dos dez maiores nomes da MPB. Após, 19 anos, o CD Luiz Gonzaga Ao Vivo – Volta para curtir, com a gravação do show em março de 72, foi lançado.

Veja 5 Curiosidades sobre a Semana de Arte Moderna de 1922

O Rei Do Baião Se Veste De Sertão

Luiz Gonzaga inovou em diferentes aspectos, já que passou a usar trajes típicos (sertanejo nordestino), a partir de 1943, época, em que não era usual, os artífices usarem este tipo de indumentária. Ademais, tocou na sacada de casas de show, para aqueles que não podiam pagar o ingresso.

Também foi o primeiro artista brasileiro a fazer uma turnê, já que, até então, os artífices restringiam-se ao Eixo Rio-São Paulo. E, principalmente, inovou ao usar o triângulo, a zabumba e a sanfona em suas apresentações.

Gonzagão apadrinhou inúmeros artistas, desde Claudete Soares (1937), aclamada a princesa do Baião, até Dominguinhos (1941 – 2013), herdeiro artístico do Rei do Baião.

Além disto, idealizou o Museu Gonzagão, dedicado à preservação do seu legado (sanfonas, inclusive a que tocou para o Papa em Fortaleza; vestimentas; discos de ouro; troféus; diplomas; títulos, etc.).

Ademais ao Museu Gonzagão, o Parque Aza Branca (registrado com Z, para acompanhar o Z de Luiz), localizado na cidade natal do artista, abriga também o Mausoléu da família, uma réplica da casa onde o artista nasceu, uma lojinha de souvenirs e duas pousadas.

O Legado e as Homenagens ao Rei Do Baião

Além do Museu idealizado pelo artista, outros três estabelecimentos pernambucanos condecoram o artista.

O Museu do Forró, em Caruaru, no interior de Pernambuco, dedicado ao Forró (ritmo típico do Nordeste, que bebe na fonte do Baião) distingue o Rei do Baião, com a exposição de fotografias, documentos e discos raros do artista.

Memorial Luiz Gonzaga

Já o Memorial, localizado em Recife, foi criado, no escopo de estudar e de preservar o legado de Gonzagão. No centro de memória, há discos raros, fotos, impressos, arquivos de áudio em formato MP3, partituras e documentos replicados do Parque Aza Branca. O memorial também ministra cursos.

Cais do Sertão Luiz Gonzaga

E o Cais do Sertão, também localizado no Recife, faz uma homenagem tanto à cultura sertaneja quanto ao Rei do Baião. O Museu possui uma área interativa, em que é possível interagir com elementos da vida sertaneja e também de Luiz Gonzaga.

Em 2012, os Correios emitiram um selo com o rosto de Luiz Gonzaga, em comemoração ao centenário de nascimento do artista.

Também em 2012, foi lançado o filme Gonzaga, de Pai Para Filho, de Breno Silveira (1964), diretor de 2 filhos de Francisco, dentre outros, que retrata a trajetória do músico, bem como a conturbada relação com seu filho, Gonzaguinha.

Luiz Gonzaga - Gonzaga - de Pai - para-filho

Direção: Breno Silveira

Gênero: drama

Produção: Brasil

Ano: 2012

Curtiu Luiz Gonzaga, O Rei Do Baião Se Veste De Sertão? Compartilhe!

 Antes de imprimir, pense. O meio ambiente agradece.

1 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 − 5 =