Veja Os 7 melhores Poemas de Carlos Drummond de Andrade

Em tributo ao aniversário de Carlos Drummond de Andrade, a ser comemorado em 31 de outubro, publico 7 Poemas Imperdíveis de Carlos Drummond de Andrade: A casa do tempo perdido, Verbo Ser, Receita de Ano Novo, As Sem-Razões do Amor

O aniversário de Carlos Drummond de Andrade deu origem ao dia D e ao Dia Nacional da Poesia (efemérides criadas em homenagem ao nascimento do Poeta Mineiro).

Confira 7 Poemas Imperdíveis de Carlos Drummond de Andrade, considerado o maior poeta brasileiro do século XX!

A Casa Do Tempo Perdido

Carlos Drummond de Andrade 

Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabriresses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

O Poema A Casa Do Tempo Perdido foi extraído de Farewell (1996), último livro organizado por Drummond.

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  1. Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Curtindo Receita de Ano Novo?

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

A Poesia Receita de Ano Novo foi extraída de Poemas Dezembro (resultado da troca de correspondências entre Drummond e o poeta mineiro Lázaro Barreto) e publicada no Jornal do Brasil, em dezembro de 1997.

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  1. Verbo Ser

Carlos Drummond de Andrade 

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

O Poema Verbo Ser foi extraído de Menino Drummond (2012), coletânea de poesias, em que o poeta relembra a sua infância.

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  1. Eterno

Carlos Drummond de Andrade 

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.

Eterno! Eterno!

O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?

— Ingrato! É o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente

eternuávamos
eternissíssimo

A cada instante se criam novas categorias do eterno.

Eterna é a flor que se fana

Curtindo Eterno?

se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe deem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.

Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência ou nem isso.
E que eu desapareça, mas fique este chão varrido onde pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

O poema Eterno consta do livro Fazendeiro do Ar (1954), de Carlos Drummond de Andrade.

  1. A Palavra Mágica

Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

poema A Palavra Mágica foi extraído de Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1977).

  1. Amor E Seu Tempo

Carlos Drummond de Andrade

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prémio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe.

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

O Poema Amor E Seu Tempo foi extraído de As Impurezas do Branco (1973).

  1. As Sem-Razões Do Amor

Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

O Poema As Sem-Razões do Amor foi extraído de O Corpo (1984).

Sobre Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade, considerado o maior poeta brasileiro do século XX e um dos três mais importantes em Língua Portuguesa, iniciou sua carreira literária na década de 20, mais precisamente em 1922, quando publicou trabalhos nas revistas Todos e Ilustração Brasileira.

Em 1925, lançou sua própria publicação: A Revista.

Em 1928, publicou o poema No meio do caminho, o qual se tornou um dos maiores escândalos literários do Brasil, pois representou uma ruptura estética.

Em 1930, lançou seu primeiro livro: Alguma Poesia (financiado pelo artista) e passou a também colaborar com o Estado de Minas, o Diário da Tarde.

Em 1945, publicou o livro A rosa do Povo, considerado a sua obra-prima.

A partir da década de 60, seus livros passaram a ser publicados em Portugal, EUA, Alemanha, Suécia, Argentina, etc.

Neste período, também participou dos programas Vozes da Cidade (Rádio Roquette Pinto) e do Cadeira de Balanço (Rádio Ministério da Educação).

Em 1986, lançou Tempo, Vida, Poesia, seu último livro.

Eu x mundo

A obra de Carlos é estabelecida, segundo Affonso Romano de Sant’Anna (1937, escritor brasileiro), a partir da dialética “eu x mundo“.

Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irônica;

Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social;

Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica.

Serviço Público

Drummond ingressou no órgão estatal Minas Gerais (imprensa oficial) em 1929 e egressou deste em 1953.

Cinco anos mais tarde, em 1934, tornou-se chefe de gabinete de Gustavo Capanema (seu amigo desde a adolescência e Ministro da Educação, do governo Getúlio Vargas), cargo do qual pediu exoneração, em 1945, por opor-se a ditadura Varguista.

No mesmo ano, entrou no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), no qual aposentou-se, em 1962, após 33 anos de serviço público.

Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade

Condecorações

Avesso a prêmios, recusou-se a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 1967, considerado o mais prestigiado laurel nas seguintes categorias (Paz, Literatura, Economia, Física, Químia, Medicina ou Fisiologia).

A condecoração, criada por Alfred Nobel (1833 – 1896), em 1895, é entregue anualmente.

A recusa da indicação se deveu quando Drummond se negou, em 1967, a enviar a tradução da sua obra, para Arne Lundgren, seu tradutor para o sueco (língua oficial da Academia de Ciências, organizadora do Prêmio Nobel).

Drummond também se recusou a receber o Prêmio Nacional Walmap de Literatura.

Não obstante tais fatos, foi galardoado com importantes láureas, dentre as quais, destaco: o Prêmio pelo Conjunto de Obra, da Sociedade Felipe d’Oliveira (1946) e o Prêmio de Poesia, da Associação Paulista de Críticos Literários (1974).

Devido a sua proeminência, Drummond recebeu várias homenagens, dentre as quais, destaco: a confecção da sua face nas notas de cinquenta cruzados novos (em circulação de 1988 a 1990) e a construção Memorial Carlos Drummond de Andrade em Itabira, com projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer.

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